Sim, para alívio de todos, o mistério revelou tratar-se, na verdade, de mais uma estripulia de Nícolas. Dona Josefina, toda sem jeito, pediu desculpas e todos se entreolharam. Indiferente a tudo e a todos, o macaquinho travesso dava cambalhotas, fazia caretas, rodopiava, rodopiava... até ficar zonzo, com as pernas tronchas e olhar de bêbado. Dona Izaura sacou o batom da bolsa, lambuzou de vermelho a boca de Nícolas e todos caíram na maior gargalhada.
__Atenção, pessoal! O forró vai continuar - gritou o senhor João, sob o aplauso de todos.
Eis que, de repente mais uma vez, desabou um temporal, desanimando todo mundo. Dessa vez, porém, a chuva parecia mais amiga, de uma beleza nunca vista, que ninguém conseguia explicar. A noite ia ficando mais linda, a chuva caindo, refrescando a temperatura.
O relógio marcava meia noite, quando, para espanto geral, aconteceu o improvável: um grande sol se abriu, a chuva continuou mais linda ainda e... vapt, vupt... Nícolas ganhou a rua, dançando na chuva. Dona Josefina foi atrás dele. O senhor João saiu também, convidando:
__Venham todos, venham ... é o sol da meia noite!
Aí, então, aconteceu o maior espetáculo da terra: todo mundo dançando na chuva. Mas todo mundo mesmo: o prefeito e a primeira dama, os vereadores, os funcionários da prefeitura, os médicos, os advogados, as professoras e as donas de casa, os aposentados, os comerciantes, os velhos e as crianças. Enfim, a população inteira dançava e cantava aquela música do Jorge Benjor: "...e a gente no meio da rua/ no mundo/ no meio da chuva/ a girar/ que maravilha!/ a girar..."
Outra turma gritava, mais adiante: "sol com chuva, casamento de viúva; chuva com sol, casamento de espanhol". Os mais velhos riam e choravam, ao mesmo tempo, de tanta emoção. Afinal, não é qualquer cidade que consegue a proeza de conhecer o sol da meia noite. Afinal, Cataguases não é uma cidade qualquer.
A chuva foi diminuindo, foi chuviscando, até parar de vez. Junto aos paralelepípedos, a enxurrada corria, parecendo o rio Pomba em miniatura. E, para alegria de Dona Josefina, foi possível ver novamente muitos barquinhos de papel na enxurrada, um após outro, navegando. Ela não se conteve e perguntou para o Nícolas, como se ele pudesse responder:
__Por onde aqueles barquinhos iriam navegar?
= F I M =
Por Mauro Sérgio Fernandes